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“Exclusivo: O discurso emocionante do Dr. Helio Santos que entrou pra história da UFBa”

“Exclusivo: O discurso emocionante do Dr. Helio Santos que entrou pra história da UFBa”

Exclusivo: Discurso emocionante de Dr. Helio Santos ao entrar para a história da UFBA

O Professor Helio Santos recebeu o título de Dr. Honoris Causa da Universidade Federal da Bahia. Emocionado com a menção honrosa concedida em Dezembro de 2023, ele fez um discurso emocionado onde abordou aspectos sobre a sociedade brasileira e suas principais riquezas materiais e culturais, destacou os jovens que intelectualmente ratificam a sua teoria denominada Antena Preta Mundial (Wordwide Black Antenna) que consiste na ligação entre todos os afrodescendentes viventes fora de África por meio de um chip ancestral e estão transformando a sociedade, além de destacar a importância dos blocos afros no processo de reconhecimento identitário e a potência da capital baiana em torna-se a Wakanda brasileira.

Confira aqui o discurso proferido na cerimônia de titulação.

Reitoria da UFBA

Salvador em 15 de Dezembro de 2023

 Radicalizar Na Equidade: O Brasil Em Outro Patamar Civilizatório

 Preâmbulo irreverente (mais sincero)

 Magnífico Reitor Paulo Cesar Miguez de Oliveira e prezados professores Luiz Augusto Vasconcelos da Silva e professor Julio Cesar de Sá da Rocha, respectivamente diretores do IHAC – Instituto de Humanidade, Artes e Ciências professor Milton Santos e da faculdade de direito da UFBA. Cumprimento também ao professor Samuel Vida e ao professor Luis Marcio Santos Faria. Antes de tudo, antes mesmo de agradecer pela imensa honra que recebo aqui hoje, preciso contar um segredo, e como tal vocês não devem revelar. Eu explico: minha vinda definitiva para a Bahia – que ocorre em 2007 –, aconteceu mediante algo que aqui se costuma chamar benção e, também, magia. Mas só falarei da benção, porque afinal não devo falar de tudo. Magia se sente não se explica. Chegando aqui em salvador, desde sempre localizei pessoas boas. Muitas delas. Só me aparecia gente boa, sempre. O interessante é que estas pessoas boas das quais me tornei conhecido não se aproximavam muito de mim. Me conheciam e pronto. O que afinal eu acabei notando?  De mim só se aproximavam e ficavam retidas as melhores pessoas.  Só as melhores, magnifício Reitor Paulo Miguez. As boas, que são muitas aqui na Bahia, graças a Deus, só me conheciam, já que as más não me apereceram – não as conheci. Bençâo, não vejo outro nome.  Foi assim que conheci o educador Edvaldo Boaventura e o artista, professor, ogã e filho de oxalá, Jayme Sodré. O professor, poeta e ativista Jônatas Conceição e meu querido e emérito professor de legiões de pessoas Jorge Portugal; imenso poeta dessa Bahia, cuja letra do 14 de maio vocês conhecerão hoje aqui na voz de seu parceiro, o querido Lazzo Matumbi. Estes amigos que já nos deixaram: criaturas boníssimas, especialíssimas e sábias sempre deram a mim um carinho e um cuidado que não sei se sou merecedor. Reitero – os amigos e amigas que estão aqui são as melhores pessoas, como a reitora Ivete Sacramento, precursora da adoção de cotas nas universidades brasileiras, Mário Nelson, Antônio Carlos Vovô com quem tenho vínculo muito antes de vir pra cá, Paulo Rogério e Ítala Herta, dois jovens que me deram a chance de em 2017 trabalhar com eles na holding social Vale do Dendê que inicia uma mudança no ecossistema da economia criativa em salvador. Cito ainda Andréia Rodrigues, Izabel Portela, e Alexandre Pássaro – algumas dessas pessoas conheci antes de vir para cá e sem dúvida todas elas motivaram minha vinda para a Bahia após aposentar-me em São Paulo. Talvez eu seja a única única pessoa de SP, já aposentada, que veio aqui para trabalhar – e como! Só na centenária Fundação Visconde de Cairu orientei 21 dissertações de mestrado e participei de diversas bancas de mestrado e doutorado aqui na UFBA, onde por 1 semestre atuei como professor convidado no mestrado profssionalizante em administração (junto com a profa. Isabel Portela) voltado para o 3º setor. Atuei em bancas também na UNEB, onde também lecionei num instigante mestrado o mepeja, voltado para o relevante setor da EJA. Novamente fui premiado com os melhores. Foram sempre experiências gratificantes em que pude sentir-me util. Há um momento especial a ser narrado quando conheci um atual professor dessa casa e que na época era ainda calouro, foi aqui nesse mesmo auditório superlotado dessa reitoria na segunda metade dos anos 1990 – portanto há mais de 25 anos – quando professava uma conferência sobre cotas raciais. Eu joguei duro e inflamei a calourada! À época ainda não existia essa política pública e eu não morava na cidade. A verdade é que naquele momento nós estávamos adubando o terreno para as ações afirmativas, chamadas de cotas raciais quando quase todos eram contrários. Ele o principal responsável por esse título que marcará minha vida para sempre: me refiro ao professor Doutor Luis Marcio Santos Faria. Professor do HIAC e hoje atuando na universidade de lyon na frança de onde veio especialmente para esse ato. Gratidão que vou levar comigo para sempre: nessa e em outras vidas.

Agradecimentos

Feita essa introdução, que eu precisava fazer eu peço excussas ao Reitor Paulo Cesar Miguez por essa irreferência. Preciso agradecer à vossa magnificência pela concessão dessa outorga que envaidece e gratifica a minha alma. Muito obrigado à Universidade Federal da Bahia pelo título. Obrigado ainda aos colegiados que referendaram meu nome no IHAC e na Faculdade de Direito. Respectivamente, agradeço os seus diretores Luis Augusto Vasconcelos da Silva e Julio Cesar de Sá da Rocha.  Agradeço os professores Luiz Marcio Santos Faria e Samuel Vida; ambos  propuseram o meu nome em suas instituições. Preciso agradecer ainda aos relatores que positivaram essa homenagem: professor Tiganá Santana e professora Mônica Aguiar. A todas as pessoas e instituições acadêmicas a minha gratidão.

Sou grato também de forma especialíssima à historiadora, e jovem professora Rosiléia Santana pelo denodo, paciência, competência e afeto em produzir em parceira com o nosso Luiz Márcio o livro-homenagem referente ao título que recebo hoje e que deverá ser distribuido aos presentes nessa cerimônia. Livro esse emoldurado por diversos desenhos feitos pelo talentoso artista pablo, gratidão pelo seu belíssimo trabalho, Pablo. Me comoveu muito.

Agradeço, profundamente, aos amigos e amigas presentes – colegas professores e professoras, ex-alunos e alunas amigos e amigas de todos os cantos do Brasil que aqui estão testemunhando esse capítulo extraordinário da minha vida:

Preciso sempre agradecer também à minha pequena, mas luminosa família: à minha irma de coração Eulália e seu companheiro Gelton, à minha filha Daniela que me suporta desde sempre cujo talento, inteligência e criatividade nunca declarei publicamente e também à essa filha por adoção do coração que é Nívia Luz e ainda à neta mais incrível que eu poderia ganhar, que veio como um bônus especial da Bahia e que já chegou a mim já pronta que é a Jamile. Muito obrigado a todas e todos os presentes por virem testemunhar esse galardão que marcará para sempre minha trajetória nessa e noutras vidas, pois é para sempre.

De maneira muito especial preciso agradecer à comunicadora que eu vi florescer ainda caloura – provocadora e irreverente – num projeto que participei quando ainda não morava aqui: trata-se de Luciane Reis de quem tive o prazer de ser co-orientador na escola de Administração da UFBAem seu projeto de mestrado. Ao longo de minha vida orientei 49 dissertações de mestrado e apenas duas co-orientações: uma na UFMG e a outra aqui na UFBA; e esta  foi a única na qual me emocionei – isto  ao longo de quase 40 anos de magistério. Toda essa movimentação e organização que trouxeram vocês aqui teve a assinatura dessa gestora de comunicação. Agradeço ainda ao Mídia Étnica, que está cobrindo esse evento, uma organização que vi florescer aqui na Bahia – na pessoa de Rosalvo Neto.

A honra e os seus motivos

O título de Doutor honoris-causa é máximo reconhecimento pela academia a quem tenha feito algo relevante para uma causa que beneficie à humanidade.

Creio que esse honroso título a mim concedido aqui hoje se deveu – antes de tudo – pelo meu engajamento na luta mais antiga deste país. Trata-se de uma batalha imensa, épica, mas de muitas atrizes e atores. Uma saga que se inicia no século 16. Uma luta permanente que se explica pela toponímia brasileira: vamos encontrar em todo o país nomes de açudes, serras, vilas e riachos com o nome de quilombo, o que demarca uma luta de + de 400 anos.

Receber essa honraria em qualquer outra universidade do Brasil seria – sim – magnífico Reitor Paulo Miguez, motivo de muita felicidade para mim. Todavia, eu estou recebendo esse título da universidade federal da Bahia, berço diaspórico negro mais relevante do mundo.

E eu vim morar aqui, nascido que fui em BH, passando por São Paulo, que foi o local onde passei a maior parte de minha vida, mas foi aqui que eu me localizei. Vim pra cá já sexagenário, mas jamais pronto. Sinto-me em construção o tempo todo. Aprendo, reaprendo, desenvolvo, penso na contemporaneidade sem jamais desconsiderar o que sempre fomos e o que poderemos ser.

Preciso dentro de meu escasso tempo analisar o nosso não-desenvolvimento por conta de nossa história sociorracial, mas não deveria deixar de focar na Bahia, no nordeste e nas causas de não sermos ainda aqui uma califórnia brasileira especialíssima. Eu preferiria evocar não a rica califórnia do google, facebook, meta, apple e outras gigantes. Mas sim de uma wakanda muito particular que tenha a nossa cara e nosso ritmo e que será o destino de salvador, a despeito de sua tenaz desigualdade.

O Brasil de carne e osso

Nosso país contém complexidades quem nem sempre são corretamente decodificadas: diversos concidadãos nossos sofrem de insegurança alimentar. Em 2022 superamos a marca de 30 milhões de pessoas passando fome – número próximo ao da população do Chile. Por outro lado, a Embrapa em 2021 informou que nossa produção de alimentos seria suficiente para abastecer a cerca de 800 milhões de pessoas. Ou seja, tecnicamente, o Brasil é um país onde não deveria haver fome, pois esses números demonstram que podemos alimentar a todos os nacionais restando ainda ¾ de nossa produção para a exportação! Ainda nesse contexto socioeconômico temos uma forte propensão ao consumo não apenas alimentar mas também de vestuário, equipamentos domésticos, habitação, serviços de saúde, lazer e de serviços educacionais e de habilitação profissional. Um mar de possibilidades produtivas nos mais diversos campos. Na contramão dessa demanda reprimida, temos do outro lado uma imensa capacidade ociosa praticamente em todos os setores (indústria, serviços, terras etc); tudo isso convivendo com cerca de 40 milhões de trabalhadores informais (que eram invisíveis para muitos até enfrentarmos a pandemia da covid-19 – volume humano semelhante à população do Canadá). Pior: dispomos ainda de um grande volume de desempregados e subempregados. Essas variáveis todas se contrapõem. Somos o 5º país do mundo em população e somos ainda o 5º também em extensão territorial. Os dados citados evidenciam algo inédito para um país capitalista: o Brasil se autoatribuiu limites. Há um acordo tácito em que nada precisa ser dito. Vamos incluir no primeiro brasil apenas parte da população – 8ª economia do mundo.   Fazemos parte do seleto grupo em que estão estados unidos, China, França, Inglaterra, Alemanha e Japão. A razão imaginada para esse fastio empreendedor, em que o estado tem que impulsionar o setor privado que opta pela financeirização e não pela produção de bens e serviços, empregos e tributos, é produto de uma miopia produzida pela hegemonia econômica que vê riscos naquilo que ela própria gerou. É como se um grupo inventasse uma falange de fantasmas e depois se assustasse com ela mesma. Explico mais: apresenta-se como razão a falta de habilitação profissional da maioria, a violência e a baixa renda da população para que os investidores não cumpram aquilo que se esperava que eles fizessem: corressem risco para atuar no mercado. Ao contrário: eles não correm risco e sim fogem dele – optam pela certeza. Fogem da anomia gerada pela incerteza que eles próprios patrocinaram. A economia flui na direção dinâmica quando há mais certezas. Mostrarei a seguir com dados básicos uma certeza que o mundo inteiro tem em relação ao Brasil: a de que somos um dos países mais ricos: dispomos da maior reserva hídrica do mundo que junto com o nosso potencial eólico e solar nos dá uma vantagem imensa no bojo da transição energética em curso no planeta. Apenas o potencial eólico seria capaz de abastecer com os seus 500 megawates a cerca de 3 vezes tudo aquilo que o país inteiro necessita. Apenas 13% da energia que consumimos é solar. Neste ano superaremos a 300 milhões de toneladas de grãos, leguminosas e oleaginosas. Nosso litoral com suas reentrâncias aproxima-se de 9000 kilômetros – não é difícil avaliar nosso potencial pesqueiro, sobretudo se incluirmos nossos rios que como eu disse constituem a maior reserva de água doce do mundo. Utilizamos reduzida área do nosso potencial agricultável. Há países europeus que utilizam mais da metade de seu território para a agropecuária. Utilizamos menos de 8% apenas. A europa inteira utiliza mais de 60% de suas terras para a agropecuária.

Apesar de nossa vastidão territorial não cuidamos do planejamento urbano. Quem me autoriza a dizer isto são as 11.000 comunidades esquecidas pelo estado que aqui apelidamos de favelas, segundo o ibge, onde vivem cerca de 16 milhões de pessoas – a população do equador.

Falei acima de nossas riquezas materiais, mas sabotei de propósito nossas maiores riquezas deixando-as para o final, refiro-me ao povo brasileiro e a sua riquíssima e diversa cultura. Toda manifestação cultural do povo negro foi estigmatizada e perseguida, mas ironicamente é o que divulga hoje o país mundo afora.

Além das originárias 1500 etnias indígenas – restam ainda umas 300. Esse indígena não desapareceu, mas em larga medida migrou para dentro de nós. Recebemos diversas nações africanas num tráfico que durou cerca de 3 séculos e recebemos ainda uma imigração da europa que contou praticamente com quase todos os países daquele continente, incluindo uma potente colônia árabe e judaica, como também tivemos a maior imigração da história do Japão. Essa diversidade riquíssima seria perfeita caso não se hierarquizassem os grupos, como fizemos aqui. A antropologia oficial tece loas a uma integração que não se efetivou porque desde sempre foi o que se decidiu.

Há quem entenda que nossa democracia ainda não encontrou a fórmula de compatibilizar desenvolvimento econômico sustentável e redução da pobreza. São economistas do mercado muito versados em números que eles inventam, mas analfabetos históricos. Quem desconhece a historia social de um país não deveria tecer políticas públicas ou propor qualquer medida que impactasse a vida das pessoas porque perpetuará desastres. Um país de meio milênio de vida será sempre o resultado de como se tratou as pessoas e como possibilitou-se a elas prosperarem com dignidade. Portanto um país é obra de séculos. Corrigir distorções graves exige radicalidade. Radicalizar na equidade e na empatia.

Vamos demonstrar a seguir que a presença majoritária do negro dificulta a distribuição da riqueza. Basta fazer a comparação entre duas capitais brasileiras com perfis raciais trocados: em salvador temos 85% de negros e 15% de brancos, em Florianópolis, capital de Santa Catarina, temos o contrário: cerca de 85% de brancos e apenas 15% de negros. Nossa salvador é a 2ª metrópole com maior percentual de pessoas extremamente pobres. São dados da PNAD contínua de 2021. Já Florianópolis, olimpicamente europeia, tem o menor percentual de pobreza. Dentre as capitais.

O cimento que cola com firmeza os tijolos dessa construção chama-se racismo.

Racismo sistêmico e inerial

É sistêmico não apenas porque perspassa toda a sociedade, mas também porque os seus efeitos retroalimentam as suas causas. O cedra aponta que nas escolas predominantemente negras só 1/3 do professorado tem formação adequada, ao passo que nas escolas predominantemente brancas, cerca de 2/3 destes profissionais estão em condição consistente para efetuar seu trabalho. Evidente que isto prejudica aquelas escolas, acarretando pessoas com formação deficiente. Tal resultado vai reforçar o estigma das pessoas negras como menos capazes; estigma esse que tanto nos prejudica. Viram como os efeitos retroalimentam as causas? Esse racismo é também inercial, porque como ensina a 1ª lei de newton – a da inércia – algo em movimento que trafega numa direção de maneira uniforme ante a inação da sociedade para contê-lo segue resoluto. Numa linguagem pouco acadêmica: está no piloto automático. Ninguém determina que nas escolas em que quase todos são negros o professorado deva ter formação inadequada. Assim como no SUS, que é democrático e universal, não determina que as grávidas negras sejam o dobro das gestantes que não cumprem as 7 consultas do pré-natal definido pelo Ministério da Saúde. Por esse dados eu diria que antes de nascer, enquanto feto ainda, a população negra já perde e   depois ao longo da vida, pois ainda no SUS são os que mais precariedade enfrentam em exames de rotina mais cruciais para a boa saúde como glicemia, colestorol mamográfia e hipertensão.

Esse racismo sistêmico e inercial acaba fomentando a concentração de renda. Relatório da global Wealth Report de 2023 afirma que 48,4% da riqueza nacional – ou seja quase a metade – está nas mãos de 1% apenas dos brasileiros. Superamos o Catar; somos o país onde menos se distribui riqueza.. Somos uma sociedade mais preparada para punir do que para oferecer oportunidades. Temos 800.000 pessoas encarceradas. Superamos a Russia e a India que tem pop 7 vezes maior que a nossa (1,4 bi).  Na nossa frente apenas estão china e estados unidos. Esse quadro é o que temos de reverter.

As cotas nas universidades cujo modelo nasce aqui na UNEB e não no RJ são um caminho para iniciar uma mudança para reduzir as desigualdades. Ainda em 2011 tínhamos mais de 100 ups adotando cotas no país – antes, portanto,  da presidenta Dilma Roussef assinar a lei em agosto de 2012. O modelo tem as impressões digitais de Ivete Sacramento, que sacramentou (desculpe pelo uso do verbo) o obvio: a universidade tem autonomia e o conselho universitário pode decidir mudar o sistema vestibular e foi o que ela fez e o resto do país foi atrás. Isto precisa ser dito e repitido. Ninguém copiou o modelo do rio que dependia da Assembléia Legislativa. Foi a Bahia mais uma vez produzindo modelos.

Na luta pelas cotas aconteceu assim: a minha geração engoliu sapos, debateu numa arena em que quase todos eram adversários ou silenciosos cúmplices, livros escritos por vetustos intelectuais que tiveram seus minutos de fama. No dizer de Sueli Carneiro, erigiu-se diante de nós um “muro midiático”. Toda grande mídia era contrária. Foi nessa ocasião, em meados dos anos 90, portanto a cerca de 30 anos, que tive um inshigt que até hoje me acompanha. Durante uma entrevista no auditório do consulado dos EUA no RJ ao ser duramente cobrado por irritado jornalista por que é que eu – um professor – insistia em cotas para negros nas universidades? Numa época em que essa política era uma grande heresia. Isto num auditório quase todo contrário. Sempre fui protegido e num segundo, perguntei-lhe o seguinte: quem é que disse ao senhor que sou a favor de cotas para negros? Ele estarrecido contra-argumentou, mas então o que afinal o senhor deseja? Com a calma que oxalá me dá em alguns momentos respondi-lhe: o que eu quero mesmo é reduzir as cotas radicais e indecentes de 100% para brancos contra as quais ninguém nunca reclamou. Quero só reduzir essas cotas; repeti. Disse mais: essas cotas de 100% para brancos, estão na redação de seu jornal, nos tribunais, nas lideranças das empresas, nos partidos políticos e nas universidades –  em todo lugar que significa conforto, vitória e bem estar. Dei sorte, porque o auditório se acalmou, os lobos e lobas viraram coelhinhos ficaram mansos. Deixe-lhes envergonhados porque nada mais impacta do que a verdade – sempre.

Mas ao falar de educação precisamos trazer os indicadores de nossa Bahia. Fale de sua experiência com colegas e com alunos de improviso. (síntese: temos na Bahia os professores + comprometidos e os estudantes + criativos)

Em 2021 o IDEB – Índice de Desenvolvimento da Educação Básica feito pelo INEP – Inst. Nacional de Estudos e Pesquisas Anisío Teixeira, magníficio Reitor Paulo Miguez, nos colocava praticamente empatados com os 4 últimos estados colocados. Tivemos o indicador 4,9 em que o pior, o do rgn, tinha 4,5 de índice.  Trata-se de uma sabotagem de gerações reiteradas.  Sobretudo tendo aqui universidade como a nossa UFBA + a Universidade Federal do Reconcavo da Bahia, a Universidade Federal do Oeste da Bahia e a do Sul e a UNILAB em São Francisco do Conde; são 5 federais e + 4 estaduais a UNEB; a UEFS, a Universidade Estadual do Eudoeste da Bahia e a Universidade Estadual de Sta Cruz.

Caberia a um governo disruptivo convidar os reitores e reitoras dessas universidades por não concordar que a terra do educador Anísio Teixeira, baiano de Caitité, permaneça com esses indicadores. Temos escolas particulares bilingues enquanto que as crianças pobres têm dificuldade em se alfabetizar em nossa idioma!.

O governo deveria ir à inteligência acadêmica e propor a construção de um modelo que em pouco mais de uma década nos tornaria um centro de excelência na educação. Evidente que além dessa vontade política é fundamental disponibilizar recursos financeiros. Chega de sabotagem às nossas crianças e jovens com esse desempenho que não faz jus a inteligência que pude constatar o tempo todo aqui. A universidade tem régua e compasso para diagnosticar e propor caminhos: como educação continuada; tecnologias educacionais avançadas com a respectiva modernização das instalações – tudo isso proporcionaria o que ouvi de Milton Santos em sua sala de trabalho no dpto de geografia da USP disse-me ele: “a filha da lavadeira precisa ter uma escola melhor do que a da filha de seus patrões”. Esta foi a forma dele me falar de equidade: nada mais desigual do que tratar a todos igualmente. Com uma escola de excelência essa menina não repetirá a saga de sua mãe. É isto. Foi o que ele quis me dizer.

Salvador uma wakanda desde sempre adiada

Evidente que não vim aqui apenas para trazer dados que nos frustram. Sempre acreditei que a chamada questão racial negra é antes de tudo parte da solução e não um problema, como muitos querem ver.

Eu trabalho com uma teoria que eu denomino antena preta mundial (Wordwide Black Antenna, no inglês) em que todos os afrodescendentes viventes fora de áfrica possuem um chip ancestral que nos conecta a todos. Estamos nas Américas, sobretudo. Estimo em cerca de 200 milhões de pessoas vivendo na diáspora negra.  Essa minha teoria que não exporei aqui e que nem está conclusa, a sede da antena preta mundial é salvador, assim como meca é a cidade-mãe dos mulçumanos de todo o mundo.

Salvador, gostaria de conclamar aqui hoje, tem todas as condições de se tornar a Wakanda brasileira. Ou seja, transformar-se num lugar onde a magia cultural que aqui cultivamos possa reverberar numa tecnologia social única que eleve o nosso idh-municipal sem as distorções dos bairros que temos hoje, quando comparamos Itaigara/Horto Florestal com Mata Escura/Vale das Pedrinhas. Precisamos fazer aqui o “gol de bicicleta”. Trazer o novo; aquilo que ainda não foi feito, mas intuido apenas. Podemos ousar em todas as demais áreas Reitor Paulo Miguez. A academia pode ajudar muito, mas necessitamos engendrar uma via de mão dupla com a população mais esquecida ávida por oportunidades. Mão dupla significa apreender e resignificar com a tecnologia acadêmica o que resultará num constructo híbrido, sofisticado e eficaz. Terá a inovação oriunda das dificuldades da nossa gente somadas ao conhecimento científico que muitas vezes não decifra adequadamente a realidade social. Eis o “gol de bicicleta”: inovo; não descumpro as regras do jogo e faço o gol.

Nos 12 anos aqui na sala de aula em Salvador, também em contato com os criadores da periferia e com os blocos afro, os quais para mim nunca foram apenas blocos, mas sim modelos de beleza, auto estima, cidadania e conhecimento; o que eu pude inferir? Estando na academia e interado com a vida real da cidade pude perceber que salvador tem um potencial único para criar a mais robusta economia criativa do Brasil, mas essa metamorfose requer gestão. A economia criativa é um potente motor da inovação, podendo gerar solução de problemas e enfrentar desafios que a economia tradicional não dá + conta. Aqui nós podemos inventar e reiventar ajustando coisas que já existem e tem ainda a força do turismo étnico-racial, o afro-futurismo. Os games que circulam bilhões de dólares mundo afora. Para escalar – crescer – dependemos de um projeto e isto de fato não está no radar de nenhum governo. Desafio colocado!

Por exemplo, os blocos afro-baianos e as escolas de samba, sobretudo as do Rio, é que têm aplicado a lei 10.639. O que o brasileiro comum tem de conhecimento sobre África e sobre a história negra do Brasil é graças às essas instituições que têm cumprido esse papel que é do estado. Tudo no 0800 sem pagar nada.

Infeliz da sociedade que desperdiça talentos. Trata-se de um crime que não fica impune. Paga-se caro.

A Salvador turística não é o único formato dessa wakanka brasileira: diversos núcleos, clusters de produção econômica: vestuário/moda afro para o mundo usar, marcas, franquias, cinema, festivais e musica. Podemos inventar e reiventar. Essa Wakanda – espécie de nucleo tecnológico e mágico. Não será um lugar de discriminações, por um simples motivo: não é da nossa cultura discriminar: todos são bem-vindos. Essa sede da antena preta mundial, será herdada pela juventude hoje estigmatizada e muitas vezes violentada.

Segundo Darci Ribeiro, célebre estudioso da alma brasileira, os negros civilizaram o Brasil pelo seu trabalho, tornando-o um player importante na comércio mundial de commodities como o açúcar, o ouro e o café.

Eu ouso pensar que vamos civilizá-lo de novo e agora de forma definitiva pela equidade que é quem materializa a igualdade. Equidade racial e de gênero, presas de forma siamesa.

A periferia brasileira é ouro. Tem inteligência, beleza e tb violências várias – destas a maior é o abandono do estado. Por isso sua população vive ensaduichada entre a violência da bandidagem e a da polícia. Para quebrar essa sina precisamos de políticas públicas que nunca tivemos: invadir essas regiões não com a polícia, mas com programas disruptivos, culturais, esportivos, educacionais e de geração de renda.

Propomos uma modernização regeneradora: o que vem a ser isto? Quando os economistas do mercado falam em arrumar a casa eles estão pensando na casa grande. Não se trata disso. Não esqueçamos, o Brasil foi o último pais do continente a terminar com a escravidão que durou quase infindos 354 anos.

Regenerar é curar, e se cura quando se diagnostica e sobretudo se reconhece que há uma doença. Mário theodoro decifra parte importante dessa doença quando evidencia que somos alimentados por um vício. Temos uma sociedade viciada em desigualdades. Desintoxicar essa país continental deve exigir de nós um pacto – um acordo ainda não feito com o estado brasileiro.

Por outro lado, é inegável que temos hoje pessoas brancas que ajudam a fazer girar a roda antirracista com denodo e com absoluta consciência das vantagens que a sociedade lhes oferece. São os brancos antirracistas que ainda são poucos, mas muito impactantes. Isto é fato.

Um recado final para a juventude

Boa parte de minha vida foi atuar pensando nas gerações futuras. Três pontos:

    1. Sonhem alto. Vocês serão o que desejarem ser. Tudo que existe aqui nesse auditório especial antes de existir foi pensado.foi projetado. Definam na cabeça o que desejam ser;
    2. Conquistem altos espaços nesse país, porque têm direito. Negros e não negros. A juventude tem direito sempre de ter oportunidades. Por mais que operem contra esse país, ele só tem um destino: seguir o formato do nosso mapa que lembra a figura de um coração: me refiro ao sentimento; empatia que é a capacidade de estar no lugar do outro. Primeiro o sentimento, depois a racionalidade. Há muita racionalidade bruta, nunca se assenhorem dela, como a bomba atômica, por exemplo, que é pura sofisticação do conhecimento da física nuclear e que é capaz de matar milhões. Nossos ancestrais sempre reagiram com luta mas tb com empatia e sabedoria. Me refiro à capacidade de fazer o “gol de bicicleta” e que pode tornar o brasil  um lugar único nesse planeta. Sejam corajosos e insistentemente criativos e finalmente:
    3. Façam como Mahatma Gandhi, Martin Luther King e Nelson Mandela que sem soldados e armas fizeram grandes revoluções e mudaram positivamente a vida de milhões de pessoas no mundo. Os 3 eram negros e nunca discriminaram ninguém – ao contrário de Hitler que atrás de si deixou milhões de cadáveres, destruição e muita dor e que se supunha pertencente à uma raça superior. Primeiro o sentimento, depois a inspiração para fazer desse mundo um lugar melhor do que quando vocês estrearam nele. O que eu chamei de “altos espaços” é isto. Em uma só palavra: evolução. Evolução sempre.

Eu reitero aqui a minha absoluta e emocionada gratidão pela presença e audiência de todos vocês.

De improviso eu disse: é um privilégio ser útil num mundo de tantas coisas inúteis.

Muito obrigado.

Segue o link da Cerimônia direto do Canal da TV UFBA – https://www.youtube.com/watch?v=03XgJ9BJ4dA

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