Now Reading
Conexões Afrodiaspóricas: Salsa o ritmo afro-caribenho que conquistou o mundo

Conexões Afrodiaspóricas: Salsa o ritmo afro-caribenho que conquistou o mundo

Como um parente do Samba, a Salsa é uma explosão percussiva que vem preservando ao longo dos anos sua matriz africana

Rogério Siqueira – Jornalista

Quando aceitei o convite de Paulo Rogério para ter um espaço de escrita e compartilhamento aqui na Afro.Tv, peguei-me pensando por qual assunto iniciar. De fato, sou um entusiasta de muitos temas que envolvem a cultura dos países africanos e das suas repercussões nas diásporas mundo afora. Para mim, a música é um ponto central pelo qual tento compreender o mundo, arrefecer a alma dos estresses diários e para meu lazer, uma vez que, nas horas vagas, me ocupo de tocar meu violão.

É patente que, quando analisamos os grandes ritmos musicais do ocidente, veremos em muitos deles a matriz e/ou influência afro, a exemplo do Rock, Jazz, Flamenco, Fado, Forró, Samba, Cumbia e tantos outros que, às vezes menos óbvios, carregam consigo herança e legado africano em seu DNA. De um universo infindo de ritmos, gostaria de começar falando sobre a Salsa. E não de maneira aleatória, mas como um amante ainda na primavera da paixão.

Desde a primeira vez que ouvi atentamente a primeira Salsa (2011), mesmo sem ainda conhecer direito suas origens, fui tomado de curiosidade acachapante, um comichão na alma que me levou a pesquisar seu berço, alcance, subgêneros e principais cantores. Aquela fusão de instrumentos percussivos com poderosos metais em uma orquestração sofisticada e enérgica me fazia saber, instintivamente, que aquilo ali só poderia ser coisa de preto! E quando o tambor bate o corpo e a alma ressoam em vibração simpática. É impossível não notar. Tecnologia ancestral, com certeza.

Salsa, em espanhol, quer dizer molho/tempero. E acredito que o maestro Jhonny Pacheco, em um esforço por traduzir o complexo conjunto de ritmos afro-caribenhos e latino-americanos, lançou mão do termo como uma hashtag da época, um agregador de conteúdo que facilitava para os não iniciados, gringos e afins, a compreensão de um universo incrível de ritmos e sabores como a Guaracha, Guaguancó, Bolero, Merengue, Rumba, e tantos outros. E sim, Salsa não é um ritmo que se encerra em si mesmo, mas antes uma reunião de ritmos que confessa uma complexa colcha de retalhos de identidades regionais e nacionais que se espalhou e se reinventa desde o mar do Caribe até a Argentina ao Sul e até Nova York ao Norte.

Em um sentido sociológico, pode-se dizer que a Salsa foi o equivalente do Samba para os países onde se originou e se desenvolveu. A analogia é pessoal, mas os motivos me parecem bem objetivos. E se o leitor quiser aceitar o convite para se aventurar neste universo, notará que, assim como o Samba, a Salsa tem marcadamente seus mestres do improviso conhecidos como Soneros, os partideiros da Salsa, ouso comparar. E, assim como o Samba, os cultos de matrizes africanas e seus sincretismos são pauta corrente, como poderão notar em canções como Aguañile, Santa Bárbara, ¡Que Viva Changó! Una Fiesta con Ochún. Ode a divindades da Santería como um forte legado do povo Iorubá.

Do ponto de vista temático, para além da questão religiosa, a Salsa cumpre um papel de letras com forte cunho social, além de seu papel alquímico quando transmuta as agruras da vida e as frustrações amorosas em músicas que dão vontade de dançar por toda uma noite, em contraste com temas ásperos que denunciam a condição do pobre, do negro e da classe trabalhadora. Neste sentido, destaque para Tite Curet Alonso, talvez o maior compositor de todos os tempos, com mais de duas mil músicas gravadas por todos os grandes nomes da Salsa de diversos países como Cheo Feliciano, Ismael Rivera, Hector Lavoe, Sonora Poncenã e Fania All Star.

Não obstante todos os argumentos, é incrivelmente fácil encontrar grandes músicas brasileiras gravadas por estrelas que ajudaram a forjar o gênero como Tito Rodriguez com sua versão de O Pato de João Gilberto, Willie Colón que teve entre seus grandes sucessos a versão de O Que Será de Chico Buarque ou Célia Cruz com sua interpretação inesquecível de Você Abusou de João Carlos e Jocafi, chegando até Baden Powell em versão de Roberto Roena para Consolação.

Ouvir Salsa é um mergulho nas culturas africanas do Caribe e da América Latina através desse aglomerado de ritmos, que considero um parente próximo do nosso samba. Uma das coisas mais interessantes da experiência como ouvinte de Salsa é poder sentir que, mesmo em diáspora, as culturas negras mantêm traços marcantes de suas origens, que nos permitem reconhecer a nós mesmos quando em contato com a cultura de outro país, pois guarda em seu cerne a mesma ancestralidade. Uma raiz forte e com muitas ramificações que nos mantém ligados por laços mais fortes do que se pode supor à primeira vista.

E por falar em África, a maior banda de Salsa de todos os tempos esteve lá em um show que marcou a história!  Imagine uma banda enorme, com pelo menos umas 15 pessoas reunindo grandes nomes do samba como Jorge Aragão, Almir Guineto, Alcione, Jovelina, Zeca Pagodinho, Monarco, Riachão e Beth Carvalho. Existiu algo assim no mundo da Salsa. A big band Fania All-Star criada por Jhonny Pacheco reunia grandes nomes do gênero vindos de vários países. E o time dos sonhos levou a Salsa no antológico show Zaire 74 (hoje República Democrática do Congo), quando aconteceu a Luta do Século entre Muhammad Ali e George Foreman! Imagina só! Bom não precisa imaginar, é possível ver este show no YouTube. É uma explosão de sabores.  

Com tudo isso, fica a pergunta: não deveríamos ter ouvido mais Salsa ao longo dos anos no Brasil?

Claro que lá pelos idos da década de 50 e 60 do século passado alguns grandes nomes chegaram a se apresentar em solo brasileiro como a própria Célia Cruz e Sonora Matancera, estabelecendo as pontes. E quando foi que paramos de utilizar essa ponte?

Para não passar batido, registre-se que um dos melhores discos brasileiros que explora as possibilidades afro-caribenha e latina para além do Brasil é, dele mesmo, o mestre Carlinhos Brown com o antológico Carlito Marrón lançado em 2003.

Para quem quiser se aventurar deixo aqui uma pequena playlist para que o leitor possa ter uma amostra da força e da raiz Afro que tornou a salsa um dos ritmos mais difundidos no mundo, inclusive tendo influenciado grandes bandas africanas como Orchestra Baobab, além de sugestões de documentários.

Playlist

Documentários

Rogério Siqueira é Embaixador do Conselho Pan-Africano para o Brasil, jornalista, gestor de projetos e conferencista internacional. Foi Superintendente da Igualdade Racial em Campos, no estado do Rio de Janeiro, além de ter desenvolvido e coordenado projetos com foco em diversidade de diversidade junto ao Facebook, Google e Netflix. Atualmente, dedica-se às relações internacionais entre Brasil, África e sua diáspora. Amante de música, toca violão nas horas vagas.

What's Your Reaction?
Curti
0
Descurti
0
Interessante
0
Quero
0
View Comments (0)

Leave a Reply

Your email address will not be published.

© 2020. Afro.Tv Brasil todos direitos reservados.