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Comemoração do 2 de Julho leva reconhecimento e respeito a história, às ruas da capital baiana

Comemoração do 2 de Julho leva reconhecimento e respeito a história, às ruas da capital baiana

Da Liberdade ao Campo Grande, população prestigiou os 201 anos de Independência do Brasil na Bahia, com participações políticas, culturais e sociais

As Heroínas – Desfile 2 de Julho

Dois de Julho é o dia em que se celebra a Independência do Brasil na Bahia. Embora a informação pareça óbvia, a data tem em si tem a importância histórica da contribuição baiana na luta pela Independência do Brasil e ratifica a resistência dos primeiros habitantes desta terra. É o dia que o povo vai às ruas da capital baiana em uma demonstração de civismo e fé.

Do município de Cachoeira, no Recôncavo Baiano até Salvador, a história do Brasil foi construída há mais de dois séculos e para os baianos, estar nas ruas no Dois de Julho significa reconhecer e reafirmar o compromisso de heróis e heroínas como Maria Quitéria, Joana Angélica, General Labatut, Maria Felipa, entre outros homens e mulheres visionários no anseio para que o Brasil se tornasse de fato um país liberto.

O sentimento de pertencer a uma história e a importância de acompanhar o cortejo da Cabocla e do Caboclo desde o bairro da Liberdade é para o soteropolitano Eulálio Estrela, um compromisso que tem até o fim da vida. Aos quarenta anos, ele recorda com saudosismo as vezes que era levado na infância, por sua mãe, para acompanhar o desfile do Dois de julho e a consciência política e moral que o ato maternal despertou nele enquanto cidadão. “É uma coisa boa ver que a gente luta desde os nossos antepassados”, comentou o morador do bairro da Liberdade.

Presidente Lula e comitiva _redes sociais

O bairro da Lapinha tem casarões históricos com janelas disputadas como camarotes para ver o cortejo passar. As suas ruas neste dia são transformadas em passarelas por onde, atrás do cortejo cívico seguem manifestações políticas e sociais, um misto de cores, cartazes e alegria em celebrar a liberdade. A cada ano, o reconhecimento da contribuição da Bahia vem se tornado mais explicita para o Brasil e para o mundo. Ao participar do desfile ao lado do Governador Jerônimo Rodrigues, o Presidente da República Luís Inácio Lula da Silva, reconheceu a importância da data e da Bahia no processo da independência. “Eu acho que nós vamos ter que transformar o 2 de Julho numa festa nacional. O presidente da República tem que participar do 2 de Julho oficialmente. Isso aqui tem que entrar no calendário da independência do Brasil”, comentou Lula.

Vereador Silvio Humberto – Créditos: @leo.arasa

O Vereador Silvio Humberto reflete sobre o aspecto social da data e a descreve como cívica popular. “O Dois de Julho tem um quê de especial porque é esse lugar onde o povo tomou conta da festa. Diferente do que acontece no 7 de setembro, dois de julho é o povo na frente a parada que vem atrás. E isso reflete muito o que foi o 2 de Julho em si, e a gente não pode esquecer que em 1823 aconteceu a independência, mas a abolição só veio 65 anos depois, então essa é a resposta do nosso povo, na rua, se divertindo, e isso não tem em lugar nenhum no Brasil. É uma demonstração de fé, de civismo e de fé na gente”, comentou o parlamentar.

Em meio as fanfarras, samba e o vai e vem das pessoas, o estudante e militante do Movimento Estudantil Augusto Matheus Souza diz que a sua participação é uma expressão política. “Estar no 2 de Julho é reafirmar nosso compromisso com a liberdade, com a luta que é histórica dos nossos antepassados, a luta de Maria Felipa, Zumbi dos Palmares, Carlos Marighela. É dia de reafirmar nosso compromisso com independência, democracia e soberania, ainda mais no período em que ainda vivemos, com parlamento reacionário, projetos de lei que atacam a vida dos trabalhadores, das mulheres. O Dois de Julho é uma data que a gente precisa politizar cada vez mais”, comentou o estudante.

Pré-candidato a prefeito Kleber Rosa – redes sociais

Para o pré-candidato à prefeitura municipal Kleber Rosa, participar dos festejos da independência do Brasil na Bahia é motivo de orgulho. “Me sinto privilegiado por estar no 2 de Julho que é o símbolo máximo na nossa capacidade de luta por liberdade e dignidade; estar na condição de pré-candidato a prefeito, me colocando à disposição de nosso povo para manter o sonho de liberdade vivo, no lugar onde a gente possa estar trabalhando pela dignidade do nosso povo. Para mim é um grande orgulho estar nesta condição, sendo e me colocando à disposição de ser porta-voz do nosso povo.”, comentou.

Pré candidata a vereadora Tâmara Azevedo – redes sociais

Tâmara Azevedo, Ativista feminista, antirracista, ambientalista, lembra que o Dois de Julho é uma momento de congraçamento da luta dos povos negros e indígenas no processo de liberdade colonial. “É uma festa extremamente valorosa e vamos à rua para saudar o Caboclo, a Cabocla e essa energia poderosa que eles trazem para a gente, com o sorriso no rosto e alegria no coração.” Pré-candidata a vereadora, Tâmara comenta a caminhada que estar por vir e ressalta o baixo número de candidaturas negras em Salvador, ao se colocar à disposição dos movimentos sociais para trabalhar pautas importantes e necessárias.

Casa de Maria Felipa

Inteligência e força feminina foram fundamentais no processo de Independência do Brasil. Para ratificar a importância das heroínas, Gildete Virgens, diretora da Casa Maria Felipa, localizada no bairro do Curuzu reúne as mulheres da instituição para celebrar, no 2 de Julho, a memória da heroína, sambando e cantando. Desde 2018, Maria Felipa é reconhecida heroína. “Estamos satisfeitas porque Maria Felipa faz parte do quadro de heroínas ao lado de Maria Quitéria e Joana Angélica, e se a gente está aqui hoje lutando foi porque elas fizeram no passado e temos a força delas dentro de nós. Somos da família de Maria Felipa.”, comentou a diretora.

Samba de Caboclo – Os primeiros habitantes do Brasil foram também os primeiros a serem atingidos pelo domínio das tropas portuguesas e também tiveram papeis fundamentais para sua expulsão do solo brasileiro. E sua força é celebrada em Samba, rituais e agradecimentos na Bahia, não à tóa que a expressão “Chorar aos pés do Caboclo” é popularmente conhecida, pois são guerreiros naturais, vão lá e resolvem.

Samba_Caboclo Zero Hora _ Créditos: Ary Mano

As homenagens aos Caboclos no 2 de Julho começaram no dia primeiro, com o Samba Caboclo Zero Hora, idealizado por Dodyso, Marcelo do Espirito Santo, Albino Apolinário, Alisson Sodré, Lazinho e Abrahão, desde 2016. O Samba surgiu a partir de uma conversa sobre a importância da data e a necessidade da retomada do objetivo cultural da festividade, a partir do resgate da importância do Caboclo Zero Hora. “Caboclo Zero Hora é uma entidade que mistura o cultural e o religioso, dentro da estrutura da religião de matriz africana e representa a miscigenação entre o negro e o índio e a cultura na sua raiz.”, explicou Dodyso. Uma oferenda para iniciar a comemoração e uma multidão que seguia pelas ruas da Lapinha, trajeto oficial do Desfile do Dois de Julho na noite que antecedia as comemorações. “O Caboclo Zero Hora tem essa força curativa, de incentivo da energia positiva que vem para todos nós”, completa.

Ao observar que faltava música de terreiro no desfile de 2 De Julho, Dainho Xequerê resolveu levar ao circuito a reverência e musicalidade africana para o trajeto percorrido pelos Caboclo e Cabocla com o Samba Mãos no Couro. “Em 2018 veio a ideia de colocar nas ruas o Mãos no Couro com o Engona móvel, que é um carro cujos atabaques ficam presos e os instrumentos de sopro entoam cantigas de Caboclo para reafirmar a importância da nossa luta”, comentou o idealizador. O mãos no Couro é um curso de percussão que visa a preservação de música de terreiros.

Governador Jerônimo Rodrigues – redes sociais

De acordo com o Governador Jerônimo Rodrigues há um pedido realizado ao Ministro da Educação, Camilo Santana para inclusão da história completa da independência do Brasil nos livros didáticos incluindo a definitiva participação da Bahia neste processo.

Confira alguns registros do Desfile.

Texto: Aní Bárbara

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