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Brasil na mira da Cabo Verde Digital

Brasil na mira da Cabo Verde Digital

Programa do governo africano investe em startups e prevê parcerias comerciais com o mercado brasileiro

Parque Tecnológico de Cabo Verde

Imagine um país onde os seus governantes entendem que o desenvolvimento socioeconômico está diretamente relacionado com a valorização dos seus cidadãos. E esse entendimento se traduz em ações efetivas por meio da realização de programas de investimento. É desta forma que Cabo Verde, país africano localizado na costa noroeste da África avança, utilizando a economia digital como um importante instrumento de promoção de desenvolvimento do país, visando a geração de emprego e crescimento econômico.

Por meio da Cabo Verde Digital, plataforma do Governo de Cabo Verde com o objetivo de fortalecer a Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC), empreendedores, fundadores de startups e aceleradoras têm encontrado apoio financeiro e subsídios para o desenvolvimento de soluções que visam levar toda expertise tecnológica do país para o mundo.

Milton Cabral – Coordenador da Cabo Verde Digital

De acordo com Milton Cabral, Coordenador da Cabo Verde Digital, o Governo Cabo-verdiano tem realizado uma série de investimentos que abrangem desde a infraestrutura até suporte, com foco em potencializar a economia digital. Uma das iniciativas desta fase é a construção do Parque Tecnológico de Cabo Verde que visa atrair para o país africano um novo segmento turístico: o turismo de negócios. Atualmente, 25% do PIB  do país vem do setor turístico, muito associado aos resorts e praias. A Cabo Verde Digital visa a criar um novo nicho, o turismo tecnológico, associado à dinâmica do nomadismo digital – nomad working. Com a inauguração no país do Parque Tecnológico, prevista para o segundo semestre de 2024, empreendedores locais terão acesso a centros de conferências, centros treinamentos, centro de incubação, centros de negócios e data center. Os turistas tecnológicos terão acesso a infraestrutura do Parque em 2025. O objetivo é criar instrumentos que facilitem a entrada e a estadia dos nômades digitais em Cabo Verde. “A Cabo Verde Digital está com uma agenda muito forte de programas e instrumentos de apoio tanto para os empreendedores que querem enveredar para o turismo tecnológico, quanto para startups que estejam em fase embrionárias e precisam de diferentes tipos de apoio para consolidar e crescer com seus negócios”, ressaltou Cabral ao comentar que o domínio digital, clima, cultura e a estabilidade política são fatores que beneficiam esse tipo de turismo.

Delegação de Cabo Verde e Vale do Dendê

Conexões para além do Atlântico – Acreditando na dinâmica mundial pautada na colaboração entre países, pessoas e entre instituições, o Governo de Cabo Verde, por meio da Cabo Verde Digital, visa apoiar e participar de missões internacionais conectando seu capital intelectual à startups de todo o mundo, tendo em vista a criação de redes de parceiros, intercâmbios e oportunidades de negócios. O relacionamento com outros países está sendo implementado estrategicamente para estabelecer diálogos entre setor público e privado e atraí-los como potenciais parceiros, a exemplo da participação em eventos e conferências internacionais, como a mais recente participação de empreendedores, fundadores de startups e representantes do Governo na Web Summit, realizado no Rio de Janeiro, no mês de abril. “Temos protocolos com países como Brasil, Portugal e Nigéria, por exemplo. No Brasil, assinamos com o Hub de Inovação e Tecnologia Vale do Dendê para trabalhar numa agenda de colaboração muito interessante. Outra parceria importante é com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas – SEBRAE, onde vamos estreitar relações e recebemos a equipe técnica do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – SENAI para conhecer e desenvolvermos atividades que possam gerar valor em outros ecossistemas”, destaca Cabral.

Pedro Lopes – Secretário de Estado da Economia de Cabo Verde

Parceria internacional – O Secretário de Estado da Economia Digital de Cabo Verde, Pedro Lopes aposta no sucesso da relação entre o Brasil e Cabo Verde. “Acreditamos que podemos posicionar Cabo Verde como porta de entrada para o Continente Africano, por ter um potencial enorme, com o mercado muito ativo. Somos o país da África mais próximo do Brasil. Para além disso, temos também tecnologias desenvolvidas em Cabo Verde que podem ser operacionalizadas diretamente com o Brasil”, destaca o secretário ao lembrar que as semelhanças históricas e culturais entre os dois países são fatores que contribuem para a parceria.  Lopes ressalta que participar de um evento em solo brasileiro como Web Summit – Rio serviu para direcionar Cabo Verde como o país de referência em Inovação e Tecnologia do Atlântico, podendo o país servir de ponte entre Europa, África e América do Sul. “É uma presença importante para reforçarmos a ligação entre os dois ecossistemas (Brasileiro e Cabo-verdiano), e vamos continuar a trabalhar para que isso seja uma realidade”, completou o Secretário que integra a lista dos 100 Afrodescendentes mais influentes do Mundo com menos de 40 anos pela MIPAD.

Não apenas soluções e serviços desenvolvidos em Cabo Verde estão sendo oferecidos para o mundo.  A AfricanDev, startup brasileira fundada pelo cabo-verdiano Marcos Jamir promete movimentar o cenário tecnológico incorporando a expertise dos profissionais de TI de Cabo Verde no quadro de colaboradores de empresas do Brasil.

Anaximandro Andrade e Saulo Montrond

Com o apoio do Governo cabo-verdiano para aumentar a base de dados, o intercâmbio profissional pode assegurar que os profissionais trabalhem em empresas brasileiras estando no seu próprio país, minimizando assim um dos grandes problemas enfrentados pela nação que é a emigração devido à falta de oportunidades de trabalho em Cabo Verde. Marcos Jamir, CEO e fundador da AfricanDev, ressalta que o diferencial desta startup é a conexão com um país africano, uma vez que a terceirização de profissionais da área de TI é uma prática comum. “É uma oportunidade que temos de mostrar que a qualidade dos nossos profissionais é tão boa quanto a ofertada na Índia ou Israel”, comentou. A AfricaDev atua em empresa com time de TI construído e sua participação no Web Summit Rio permitiu a visibilidade e conexões com as empresas que necessitam dos profissionais africanos.

Quem celebra o resultado positivo da presença em solo brasileiro é a startup RiftOne. Com a promessa de democratizar o acesso à educação ampliando o alcance do conteúdo digital em regiões de difícil conexão de sinal da internet, a empresa africana criou um dispositivo inteligente que chamou a atenção de parceiros e investidores brasileiros. “Uma startup que está trabalhando com conteúdo para pessoas portadoras de deficiência nos procurou para entender como podem colocar a plataforma deles dentro da nossa plataforma”, comentou Saulo Montrond, CEO e fundador da RiftOne.

Com protótipo validado, a meta da startup é convencer investidores para produzir em grande escala e comercializar o computador que traz integrado criptomoeda própria com sistema de recompensa ao ser utilizado, Inteligência Artificial que disponibiliza conteúdo exclusivo de acordo com o interesse do usuário e a conectividade LoRa que promete levar dados gratuitamente para lugares sem internet, apenas com eletricidade. O sistema permite, por exemplo o envio de foto de alta resolução em um tempo mínimo de até seis minutos para áreas com até 200 km de distância do computador central, tendo em vista o acesso de conteúdos digitais para alunos em áreas remotas como a Zona Rural. “O mercado brasileiro é enorme, há muita gente desconectada mesmo cá no Brasil. Muitas pessoas podem ter acesso a internet mobile, mas muitas pessoas podem não ter acesso a internet long band e não tem computador em casa. Então o Brasil é similar a muitos países que temos em África. Há um potencial enorme neste mercado para um produto como o nosso que é único”, completa Saulo Montrond.

Outras duas startups marcaram presença na Web Summit Rio, foi a Health que apresentou o Sistema Health 360 Health (alfa), uma solução integrada para as necessidades de gestão da saúde em clínicas, farmácias, laboratórios e unidades de saúde e a CV FIT, que oferece exercícios de condicionamento físico e saúde mental por meio de uma plataforma digital. “A participação na Web Summit representou uma oportunidade extraordinária para que as startups caboverdianas estivesse em contato com as startups brasileiras, europeias, asiáticas, das américas e possam acompanhar as tendências, estabelecer parcerias, desenvolver relação e fechar negócios em geografias diferentes e se mantenha conectado na velocidade e nas tendências do mundo”, concluiu Milton Cabral.

Texto Aní Bárbara

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