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Cabo Verde: a Wakanda da vida real

Cabo Verde: a Wakanda da vida real

No final dos anos sessenta, a Marvel escreveu um quadrinho que décadas mais tarde se tornaria um fenômeno cultural importantíssimo para todo os africanos e seus descendentes. O filme “Pantera Negra” conta a história de um reino mítico escondido no meio das florestas africanas que esconde um grande segredo do ocidente, a sua grande riqueza: o vibranium, um metal precioso altamente tecnológico, com poderes de cura e de adaptação. No filme, Wakandianos brigam entre si por divergirem se devem oferecer esses poderes para o mundo, e em especial os povos afrodescendentes que lutam contra as opressões, guerras e uma infinidade de injustiças.

Wakanda não existe. É ficção. Porém, existe, sim, um pequeno arquipélago, formado por dez ilhas no meio do Oceano Atlântico, que quer se posicionar como o hub tecnológico do continente africano. E parece que estão, de fato, conseguindo isso, com muita determinação e investimentos públicos e privados.

Cabo Verde não é um país qualquer e todo cabo-verdiano sabe bem disso.  Apesar de ter uma população menor que um bairro de Salvador, com menos de 500 mil pessoas, há algo um tanto quanto místico – e uma série de coincidências histórias- que faz Cabo Verde ser um país relevante e posicionar-se entre as grandes nações do mundo, seja pela sua história, cultura e agora, suas tecnologias.

Há razões e paralelos para ligar Cabo Verde às histórias ficcionais ou reais sobre tecnologia. Platão foi o primeiro grande pensador a falar de uma grande civilização perdida no meio oceano Atlântico, a civilização “Atlântida” que pode ter existido de fato ou ter sido uma das mais celebradas e bem elaboradoras Fake News no mundo ocidental, pesquisada até hoje por muitos arqueólogos. Mas, há, algo curioso nessa narrativa, como diz a revista National Geographic, em uma matéria sobre essa suposta civilização perdida:  “Nos diálogos de Platão, a Atlântida é apresentada como um estado sofisticado, que desabou depois de os seus líderes arrogantes tentarem invadir a Grécia. Devido à sede de poder do seu povo, disse Platão, a Atlântida foi castigada pelos deuses, que lançaram sobre ela desastres naturais que a fizeram afundar-se no mar, aniquilando o que restava do seu poder. ”

Pois bem. Estamos acostumados a ouvir nas aulas de geografia sobre a Polinésia e a Melanésia, mas confesso que nunca tinha ouvido falar sobre a Macaronésia, uma região que agrupa os arquipélagos de Açores e Madeiras pertencentes à Portugal, Ilhas Canárias, que pertencem à Espanha e Cabo Verde – que se liberta do colonialismo português em 1975, tornando-se uma nação soberana.

Essas nações, situadas em regiões vulcânicas, seriam, portanto, segundo a teoria de alguns pesquisadores, os resquícios da civilização Atlântida!  Mais uma coincidência narrativa sobre essa fascinante região do mundo.

Ficção ou realidade, há em Cabo Verde uma infeliz tragédia geográfica similar ao castigo que Platão cita ter sofrido a civilização Atlântida. Falta de chuvas, secas e estiagens, cidades próximas a vulcões e um claro isolamento bucólico, pelo fato de ser um conjunto de ilhas no meio do oceano. Porém, é na tecnologia, no fomento às startups e atraindo nômades digitais de todo o mundo que Cabo Verde aposta para gerar mais negócios e melhorar as condições de vida dos seus moradores.

Cabo Verde é sinônimo de resiliência

Em Cabo Verde descobri o verdadeiro significado da palavra resiliência e entendi o motivo do país ter mais pessoas morando fora dele – mais de um milhão de pessoas – do que dentro do país – menos de 500 mil. Os cabo-verdianos vivem a emigração de um jeito particular. Não há um cabo-verdiano que não tenha um familiar ou amigo em Portugal, Estados Unidos, Europa ou Brasil.  Com um mercado interno tão pequeno e com a necessidade de importar quase tudo que consome, devido à falta da agricultura e ausência de recursos minerais, sobra ao cabo-verdiano o caminho do aeroporto.

Desço no aeroporto de Praia, em um fluxo inverso, vindo do Brasil à Capital de Cabo Verde (cidade da Praia, ilha de Santiago) para um evento sobre tecnologia e juventude achando que iria descobrir sobre a cena de startups locais, mas sou surpreendido com o fato de que, nós brasileiros, simplesmente desconhecemos a história que liga Cabo Verde ao Brasil. A começar pelo fato de que durante a colonização portuguesa foi no arquipélago cabo-verdiano, chamado à época de província ultramarina portuguesa, que se construiu o rascunho do Brasil.

Os portugueses ocuparam esse território em 1460, portanto, quarenta anos antes da invasão às terras brasileiras. Foi aqui, que segundo a professora Izaura Furtado, da Universidade de Santiago, que me levou a conhecer a Cidade Velha e o Pelourinho deles – sim, eles têm um local igual – foram testados os frutos vindos da Ásia e da própria Europa para poderem ser levados ao solo brasileiros. Frutos que hoje consideramos brasileiríssimos como o coco, a banana, manga e a jaca foram adaptados aqui, pois com a colonização havia-se de mudar também os hábitos alimentares dos povos originários para uma “aculturação” alimentar. Esse é um assunto, inclusive, que vale muita pesquisar pelas universidades brasileiras.  Da mesma forma, animais foram aclimatados em Cabo Verde para depois seguirem para o Brasil como os bovinos, por exemplo.

De fato, a construção da hoje chamada Cidade Velha, a antiga Ribeira Grande de Santiago, em 1462, foi a primeira cidade construída pelos Europeus fora da Europa, e uma prévia ou modelo para o que viria a ser depois a cidade de Salvador, que seria construída apenas em 1549. Andar pela Ilha de Santiago, onde localiza-se tanto a atual capital Praia e a Cidade Velha é ter uma espécie de Dejá Vú da Bahia.

Confesso que me emocionei várias vezes e chorei ao ver tamanha similaridade seja dos jovens nas muretas conversando em algum local que poderia ser a nossa Ribeira ou Ilha de Itaparica ou de olhar para o mar imenso e azul com pedras vulcânicas e lembrar que muitos dos nossos ancestrais saíram dali para enfrentar semanas intensas de banzo para, se tivessem sorte, chegar na costa brasileira para serem escravizados.

Sim, além de tudo, tenho o dever de informar a vocês que por mais que a gente não aprenda isso na escola, Cabo Verde foi um grande entreposto de venda de seres humanos em condição de escravidão, tal qual foi a cidade de El Mina em Gana ou a Ilha de Goreé no Senegal. Na antiga capital de Cabo Verde, os que saiam do continente e chegassem fortes e sem doenças seguiam rota para as Américas. Já os que estavam fracos e adoentados eram vendidos na promoção, com um preço mais barato para trabalhos mais domésticos no próprio arquipélago, pois nas ilhas não havia agricultura de escala. Essa página sombria da nossa história está ali muito próxima a nós, porém por um projeto político da elite luso-brasileira essa memória foi perdida e precisa ser resgatada.

Ilhas Mundo

Os cabo-verdianos referem-se a seu arquipélago como Ilhas Mundo. De fato, existem vários arquipélagos pelo mundo – O Japão é um – mas, nenhum deles está no centro de três continentes como Cabo Verde. Estando lá, percebi como muitos falam inglês e francês, além, claro do português, língua oficial, e a Kriola (junção e mistura de vários idiomas africanos com idiomas europeus) – que é a língua do dia a dia. Essa mescla cultural e linguística se deu justamente pelo fato de estarem a 4h de voo de Lisboa e a 3h de Recife. Sim, é mais rápido para um nordestino chegar a Cabo Verde do que a Porto Alegre no Rio Grande do Sul. Muitos não sabem, mas cabo-verdianos fugindo de uma das constantes secas do país fundaram em Pernambuco uma cidade e que vários artistas famosos brasileiros têm ascendência cabo-verdianas, como Seu Jorge, Sandra Sá e Dudu Nobre.

Há uma linda e poética expressão em Kriolo que resume o espírito “imigrantista” cabo-verdiano “Si Ka Badu, Ka ta Biradu” que significa “Se não fores, não podes voltar”.  Referindo-se ao fato de que todo cabo-verdiano uma vez na vida vai se deparar com o conflito entre ir ao exterior para trabalhar ou estudar e que no fundo a vontade dele sempre é voltar.  Fiquei impactado com histórias que vi na rua de famílias separadas, mas que se conectam de uma forma tão intensa pela ajuda que recebem e mandam sempre. Não é incomum ver nas ruas do país mulheres vendendo roupas e diversos produtos que muitas vezes recebem dos seus familiares em tonéis azuis que chegam cheios e depois servem para armazenar água.

Eu me emocionei com os relatos de que muitas vezes chove no mar e o agricultor olha aquela cena rezando para que a água venha para a terra, para que sua plantação de desenvolva. Lembrei muito do nosso sertão e falei para eles como no Brasil tem um povo resiliente como eles, que também sofreu a ainda sofre com essa migração forçada por questões climáticas. Há um ditado aqui que exemplifica essa melancolia do cabo-verdiano com essa falta de sorte geográfica “Deus criou o mundo, mas não criou Cabo Verde”.  Mas, fazendo um paralelo com clássica frase de Euclides da Cunha, eu diria que o “Cabo Verdiano é antes de tudo um forte” e a capacidade de reinvenção desse povo é algo exemplar.

Em 1975, um ano após a queda do ditador português Salazar e o fim do colonialismo, que já estava sofrendo duros golpes com a guerrilha em Guiné Bissau, Angola, Moçambique e a então província de Cabo Verde se tornam finalmente independentes. Porém, como toda nova nação e justamente por uma transição conturbada, havia-se de chamar as Nações Unidas para estudar os indicadores do país e dar um diagnóstico sobre os pontos fortes e fracos da nova nação. Foi aí que um relatório caiu como uma bomba na cabeça dos cabo-verdianos. A ONU, em um documento oficial, atesta que Cabo Verde é uma nação inviável economicamente, seja pela infertilidade da maioria do solo pela falta de chuvas ou pelas áreas vulcânicas, seja pelo tamanho do mercado interno ou pelo seu isolamento geográfico. Essa informação mexeu no brio dos habitantes que prometeram para si mesmos, quase que como uma jornada do herói de Joseph Campbell, que iria, sim, ser uma nação viável, prospera e independente.  Hoje, quase quatro décadas depois, de fato, Cabo Vede é um país com ótimos indicadores sociais, principalmente ao se comparar com outros países africanos e até da América Latina.  Cabo Verde é uma ilha de estabilidade democrática entre países com muitos conflitos, tem uma imprensa livre e diversa, mantém boas escolas e universidades e tem um ecossistema de fomento a negócios de fazer inveja ao Brasil, guardado as devidas proporções. 

Cesária Évora: matriarca da nação Cabo-Verdiana

Muitos dizem, e com uma certa razão, que o poeta e revolucionário Amílcar Cabral foi o pai da nação cabo-verdiana por lutar contra o colonialismo português para liberar Guiné Bissau e Cabo Verde – talvez sendo o único líder anticolonial dessa época a fazer isso em dois países e ter sucesso. Cabral foi assassinado em 1973 e não viu o resultado final de sua luta com uma Cabo Verde livre dos antigos colonos e opressores, porém seu legado ainda hoje é celebrado, apesar de críticas à forma centralizadora e incoerente da política de partido único, além do alinhamento à antiga URSS.

Porém, houve uma outra pessoa que surgiu no cenário internacional levando a cultura de Cabo Verde, coincidindo com a abertura política do país no início dos anos de 1990, a chamada diva dos pés descalços, Cesária Évora. Essa, uma mulher do povo, da Ilha de São Vicente, que cantava em bares de periferia e casas de prostituição, como mostra o documentário “Cesária Évora”, de Ana Sofia Fonseca.  A história de Cesária é uma história linda de improbabilidades e resiliência – que é a própria lírica da alma cabo-verdiana.

Com uma história de desabores e uma voz inconfundível, Évora ganhou os palcos da chamada World Music no meio dos anos 90, talvez sendo a primeira africana a ganhar essa proporção global. As músicas dela dão uma dimensão da grandeza de Cabo Verde, um local de muitos poetas e poetizas, compositores e músicos.

Não há como passar uma noite no chamado Plateau, bairro comercial durante o dia e boêmio durante a noite, e não se emocionar ouvindo a música cabo-verdiana e ouvindo a música de Cesária ecoar pelos quatro cantos.

Conheço Cabo Verde faz tempo justamente por conta da voz dessa grande cantora. Lembro-me de ser apresentado a Cesária pelo querido e saudoso Sérgio Roberto, criador da Noite da Beleza do Ilê Aiyê. Até hoje me arrependo de não ter ido ao icônico e parece que único show dela na Bahia, durante a Cúpula dos Intelectuais da África e Diáspora, a CIAD em 2006. Cesária veio a falecer poucos anos depois em 2011 por “insuficiência cardiorrespiratória e tensão cardíaca elevada”, fruto provavelmente dos anos de alcoolismo, vício em cigarro e depressão profunda. Não há como escutar Cesária Évora e não a colocar no panteão de divas como Billie Holiday, Amália Rodrigues, Elza Soares e Edith Piaf.

Hoje, milhares de turistas saem de várias partes do mundo para conhecerem o arquipélago de Cabo Verde por conta da Morna e Coladeira cantada por Cesária. De fato, ela não cantava outros ritmos das ilhas do Sul, ela nem tocava Batuko, Funaná nem Finason, que são ritmos da Ilha de Santiago, cantados por outras mulheres que não tiveram a projecção que ela, mas ajudou a divulgá-los. Cesária foi rejeitada pelas gravadoras por conta de sua aparência, porém que teve um produtor que prometeu a ele mesmo que faria Cesária ser conhecida e “fazer o mundo chorar”, com a sua voz única e que emociona logo nos primeiros acordes.    

Aqui vale um registro, parece-me que Cabo Verde deve ter o maior número per capita de musicistas e compositores por metro quadrado, o que reforça a minha “tese” de que as ilhas têm uma relação mística com a música.  A pequena ilha da Jamaica entregou ao mundo o reggae, Cuba a salsa, a bachata da República Dominicana, o reggaeton de Porto Rico, o rock da Inglaterra e até o pós rock da Islândia, com exceção, claro do Brasil e Estados Unidos, porém esses em lugares com fortes baías como Bahia e Rio de Janeiro ou, no caso estadunidense, com os rios do sul do país berço do blues e o jazz. Cabo Verde é a expressão máxima dessa minha teoria, pelo tamanho da população e a projeção de sua música com artistas como Mayra Andrade, Sara Tavares, Tito Paris, os Tubarões e a própria Cesária Évora.

Um país de diásporas

Cabo-verdianos se dividem entre dois tipos, os que vivem no país e os imigrantes e seus descendentes, considerados “da diáspora”. São gerações de cabo-verdianos em várias partes do mundo, que visitam o país muitas vezes no final do ano ou que se reúnem em eventos ao redor da música, para celebrar e preservar as raízes cabo-verdianas. Com as devidas proporções guardadas, são como os judeus com Israel. O sonho de muitos cabo-verdianos de meia idade é voltar para contribuir com o seu país.

Porém, há uma oportunidade não percebida pelos governos e classe política de Cabo Verde, a possibilidade de atração da diáspora africana do Brasil para visitar, colaborar e viver no país. Percebi que o foco do turismo do país ainda é a atração de europeus ou sua própria diáspora, mas imagina a juventude afro-brasileira descobrindo Cabo Verde, que de fato é o portal para o continente africano pela sua proximidade geográfica com o Brasil, laços históricos e pelo fato dos cabo-verdianos amarem cultura brasileira e conhecerem muito da história e da mídia brasileira. Seja pelas telenovelas ou pelas músicas.  Me surpreendi como jovens cabo-verdianos conhecem detalhes de artistas como Léo Santana, Tonny Sales ou Pablo do Arrocha. É realmente impressionante essa ligação que é simplesmente ignorada, ou desconhecida, pelo Brasil. A chamada “morabeza” de Cabo Verde, que é uma expressão em kriolo para se referir ao acolher, receber bem, associada à nossa cultura brasileira seria uma grande conexão e intercâmbio.

A música mais conhecida de Cesária Évora chama-se “Sodade”, que aqui no Brasil conhecemos como “saudade”, celebrada aqui em música e versos pela nossa bossa nova e MPB, lá, no ritmo “morna”, essa música ganhou o mundo e não há mesmo como visitar Cabo Verde e no aeroporto ou no voo de volta não lembrar como essa música faz muito sentido.

No meu caso me despedi da paisagem “lunar e cinza” da cidade de Praia e fui vendo o azul do oceano atlântico se misturar com o azul do céu ouvindo essa música e lembrando que tenho a missão de divulgar a cultura de Cabo Verde pelos quatro cantos do Brasil e fazer jus ao carinho que eles têm por nós. Afinal, temos muito o que aprender com esse pequeno país que se reinventa a cada dia. Fazendo uma paródia com o Rei T’Chala no filme Pantera Negra “Cabo Verde para sempre”. Que esse “petit pays” em geografia, mas grande no coração dos que amam música, arte e cultura, cresça e seja ainda mais conhecido no Brasil.

Um agradecimento especial à Professora Izaura Furtado, pelos diálogos inspiradores em Cabo Verde. Sem ela, esse artigo não seria possível.

Paulo Rogério Nunes, consultor em inovação, empreendedor e é autor do livro “Oportunidades Invisíveis”.

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