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Conexões e diversidade – Viviane Elias Moreira e o novo “mundo” operandi

Conexões e diversidade – Viviane Elias Moreira e o novo “mundo” operandi

Do trampo para sobrevivência ao cargo executivo, mulher negra e periférica contraria estatísticas revolucionando o pensamento quando o assunto é equidade racial no mundo corporativo

 

 

Viviane Elias Moreira nasceu e cresceu na Zona Leste de São Paulo. Para além da jovem “inteligentinha” como intitulada por uma professora na juventude, ela tornou-se uma mulher disruptiva que “bugou” o sistema e o preconceito e tornou-se referência quando o assunto é sensibilidade humana e alta gestão executiva e resiliência corporativa no Brasil.

As imposições da infância simples da mulher negra periférica a fez enxergar com objetividade as possibilidades que a acenavam por meio da educação e tendo a estrutura familiar como base de sustentação para ir em busca do seu crescimento. Liderar pessoas ensinando e aprendendo, está na essência da executiva que ainda jovem panfletou em sinaleiras e repassou seu conhecimento para colegas de sala no ensino médio. É enfática ao afirmar que as práticas de Diversidade, Equidade e Inclusão representam muito mais que procedimentos internos, títulos ou capas de revistas.

Para Viviane Elias, o acesso à educação e a igualdade de oportunidades são desafios reais onde a ausência de políticas públicas e de iniciativas das organizações privadas com soluções para a raiz do problema reflete no racismo estrutural velado em uma sociedade onde a juventude negra, age no modus operandi de sobrevivência experienciadas por seus pais,  e  perdem-se no papel da referência que deveriam ser para seus filhos.

Ela compara a estrutura social do Brasil de 1.500 ao Brasil atual e lamenta que detentores de poder que poderiam contribuir para educação façam uso pessoal das causas coletivas. “A única diferença entre o Brasil de 1.500 para o de 2024, é que quando tivemos a oportunidade de aquilombar de maneira correta, a gente se perdeu sem entender que o racismo estrutural evoluiu”, comentou a executiva.

Com a delicadeza de uma orquídea e olhar tridimensional, ela descreve o atual cenário e fala das perspectivas para pautas como DEI e ESG. A executiva em resiliência corporativa destaca a urgência na tomada de decisões para que a equidade racial continue existindo e sendo aplicada. “Se não agirmos rápido a pauta de equidade racial irá retroceder, principalmente porque temos uma dependência das multinacionais americanas; se olharmos o que vem acontecendo com os direitos civis nos Estados Unidos nos últimos anos fica muito claro que essa tendência baterá em nossa porta”, sinaliza ao lembrar que a especificidades ofertadas nos programas de trainees e estágios não refletem ascensão desses profissionais negros em cargos executivos como gerentes, diretores, C-level, conselheiros. “Em março de 2024, nós temos zero pessoas pretas presidentes das 500 maiores empresas do Brasil. Menos de 1% de pessoas pretas em cadeiras de conselhos de administração, presidente de startups e temos menos de 1% de mulheres pretas presidentes de empresas de todos os portes. A gente nunca teve na história do Brasil uma mulher preta presidente das 500 melhores empresas. Enquanto não entendermos que para além da política de diversidade e inclusão, para equidade racial precisamos ter ações e efetividade, continuaremos em uma falácia romântica, achando e usando subterfúgios como a frase de efeito – ‘A favela venceu’. Será que não está na hora de falar sobre programas de programa de pessoas pretas para cadeira de liderança?”

De “Zamunda a Wakanda”, Viviane Elias defende que é preciso aquilombar-se no mundo corporativo, pois esse ambiente é porta de entrada para ascensão profissional e pessoal e a mudança de chave para muitos dos problemas sociais enfrentados. Ela questiona as reais intenções de empresas e empresários que discutem a empregabilidade das pessoas pretas nas salas com ar condicionado e coffe-break, sem exercitar o convívio social. Atenta as tendências, também chama atenção para movimentos estratégicos realizados por artistas e investidores estrangeiros que enxergam Brasil e África como potências econômicas e aportam seus projetos pessoais nesses países desconhecendo as reais necessidades locais.

 

 

Ancestralidade – Foi no solo do Quilombo de Palmares (PE), local onde surgiu o primeiro Conselho de Administração 100% negro do país, que o entendimento se fez apurado e a sensação de pertencimento da sua história a tocou. Um exercício fácil para quem honra pai e mãe e cuida deles como extensão ao cuidado devido aos seus ancestrais. “Meu pai e minha mãe são minha diáspora. Honrá-los em vida é honrar todos aqueles que vieram no navio negreiro e me deram a vida que eu tenho agora.”  Viviane Elias é uma mulher realista esperançosa que para sobreviver precisa encarar a realidade e não hesita em agir, seja nas organizações que colabora do planejamento ao mutirão de limpeza, no retorno ao seu ponto de equilíbrio do convívio com amigos e familiares na Vila Talarico ou “causando” com seu Quilombo no Shopping JK. Para ela, o importante é ocupar esses espaços que por muito e para muitos são distanciados e reunir pessoas para que o corporativismo e a sociedade não se percam na reconexão.

Texto: Aní Bárbara

 

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