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Filme One Love mostra que Bob Marley foi o profeta dos oprimidos de todo o mundo

Filme One Love mostra que Bob Marley foi o profeta dos oprimidos de todo o mundo

 

 

Existem poucos ícones tão celebrados no mundo, como Bob Marley. Ao lado de personagens distintos e contraditórios entre si, como Mahatma Ghandi, Che Guevara, Frida Kahlo e Nelson Mandela, a imagem de Marley é sempre associada a mensagens de positividade e amor.

Porém, antes da chegada de “Bob Marley: One Love” aos cinemas, poucas pessoas conheciam a história da vida de Robert Nesta Marley, jovem afro-jamaicano que enfrentou o sistema político local, lutou contra guerras e injustiças, levou o reggae para os quatro cantos do mundo, influenciou a estética dos homens negros na época, e que hoje usam naturalmente locks. Bob Marley escreveu seu nome na história do pan-africanismo.

O filme produzido pelo seu filho Ziggy Marley e dirigido por Reinaldo Marcus Green, mostra o ser humano Robert com suas dúvidas, fraquezas e contradições. Destaca a força de Rita Marley, parceira inseparável de música e da vida, que o acompanhou até o final da sua existência duramente interrompida por um câncer em 1981, aos 36 anos de idade.

Essa é a primeira vez que detalhes da vida do ícone do reggae são mostrados globalmente nas telas de cinemas, tornando o nome de Marley conhecido entre a famosa geração Z – que não viveu a explosão do reggae nas rádios nos anos 80 e 90, no século passado.

Sim, querendo ou não, apesar da música de Bob Marley ser replicada e regravada por milhares de artistas em todo o mundo, ela se popularizou nas décadas passadas muito mais que atualmente – algo que deve mudar rapidamente após a produção cinematográfica, que já quebrou recordes de bilheteria mundialmente.

No Brasil, vale destacar a influência do reggae nas principais capitais da região Nordeste, como elemento fundamental da sociabilidade e da união dos trabalhadores e populações periféricas, sobretudo em cidades como Salvador e Cachoeira na Bahia, e em São Luís no Maranhão. Nesses lugares, o Reggae transformou-se em fenômeno musical, semelhante ao Rap em São Paulo e o Funk e Black Music no Rio de Janeiro, nas décadas de 80 e 90. Olodum, Muzenza, Edson Gomes, Tribo de Jah… a influência de Bob está em todos esses nomes da música nordestina.

O filme faz um recorte histórico bem específico da saída de Bob Marley da Jamaica por conta dos conflitos internos, a explosão do Reggae no mainstream global e obviamente mostra as contradições e dilemas de um jovem adepto da religião Rastafari (vale pesquisar sobre os princípios que os rastafáris seguem) e que de uma hora para outra torna-se uma estrela global, sendo forçado a frequentar festas da elite mundial e ser recebido por chefes de estado da “Babilônia”.

Essa tensão entre os princípios filosóficos do rastafarianismo, a fama, o amor pela Jamaica e a vontade de levar a música pan-africana pelo mundo fazem a vida de Bob e o filme “One Love” serem ainda mais interessantes e dramáticos.

Emocionado, confesso que sai do cinema chorando. Como sou um baiano e nasci na periferia de Salvador, obviamente cresci ouvindo Bob Marley na companhia de meu falecido pai e tios.  Era muito comum, naquela época, esse tipo de sociabilidade aos domingos de manhã jogando futebol no campo de “terra batida”. Aquele campo de futebol funcionava como uma espécie de “Escola Dominical Cristã”, e ali fazíamos a nossa comunhão em família.

Os adultos tomando seus cálices de vinho barato e, mesmo sem entender muito bem o inglês “viajavam” naquelas melodias; nos olhávamos – adultos e crianças – nos reconhecíamos na música, na dança sem passos sincronizados, e livremente celebrávamos o nosso “One Love” olhando para o céu azul e agradecendo a Jah por estarmos vivos e felizes.

Essa memória afetiva proporcionada por Bob Marley é do bairro do Alto da Terezinha /Rio Sena, onde cresci em Salvador, mas poderia ser em Lagos, Accra, Addis Abeba ou com certeza na Trechtown, a favela onde Bob Marley nasceu em Kingston na Jamaica.

 

Paulo Rogério Nunes é consultor em Diversidade e Inovação, Futurista e autor do livro “Oportunidades Invisíveis”.

 

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