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Você conhece Júnior Pakapym, jovem negro, periférico e talentoso criador da marca do Carnaval 2024 ?

Você conhece Júnior Pakapym, jovem negro, periférico e talentoso criador da marca do Carnaval 2024 ?

Confira na entrevista abaixo cedida a Afro.TV

Crédito: Diógenes Neghet

Quem anda pelas ruas de Salvador nos dias que antecedem o Carnaval 2024 pode observar que a marca, também tema do Carnaval – Salvador Capital Afro tem elementos que remetem a diáspora, cores vibrantes que se referem tanto aos países africanos quanto a alegria da cidade nos dias de folia. Cada traço é um misto de conhecimento e criatividade do jovem artista Júnior Pakapym, que aos 36 anos tem trabalhos espalhados Brasil à fora, respeito a religião de matriz africana e uma simplicidade encantadora. A Afro.TV conversou com o artista também responsável pela estampa dos Filhos de Gandhy neste Carnaval.

Afro.TV – Quem anda pelas ruas da capital baiana vir estampada a identidade visual do Carnaval. Como você se sente vendo sua arte nas ruas.

Júnior Pakapym – Me sinto vivo em ver toda essa comunicação criada por mim na cidade. Eu falo vivo porque sou um jovem negro periférico e a gente sabe o que é ser um jovem negro periférico em Salvador e longe de vários contextos que poderiam facilitar a minha chegada até esse momento e eu chego na garra, na força de vontade, na sobrevivência mesmo. Lutando, ainda que na internet ou em todos os lugares que eu possa estar com minha arte para ter essa visibilidade e chegar em lugares como este.

Afro. TV – Como se deu o convite para criar a marca do tema do Carnaval baiano?

J. P – Esse lance de já trabalhar com algumas pessoas, com um público nacional e  internacional o nome “corre”. Trabalho em agência de publicidade desde 2006 e  sempre que faço algum trabalho, publico, impulsiono.  Eu acho que o boca a boca ajuda muito e esse lance de compartilhar vai levando a arte para alguns lugares.

Afro. TV –  Você assina outros trabalhos de grande notoriedade. Que projetos são esses?

J.P – No final do ano passado (2022) eu fui um dos artistas indicados da região Nordeste para participar da composição dos painéis do Ministério da Saúde, em Brasília e criei um painel sobre imunização infantil ( Zé Gotinha), além de ter trabalhos com livros infantis, direção de arte de revistas. Eu já fiz tanta coisa. rsrs Tem o lance dos blocos carnavalescos também. Eu acho que esses são os principais.

Afro.TV – O que a arte representa para você ?

J.P – A arte representa tudo para mim. Eu não sobreviveria sem arte, porque ela está em mim desde sempre. Minhas primeiras artes foram aos 7 aos 8 anos, me acompanha nessa caminhada e hoje é o meu sustento. É o que me faz ter fé em alguns projetos que tenho, que almejo, e o que também me faz resistir. É o que faz retratar a minha vivência ancestral, meu legado de vida, minha afro-religiosidade, minha negritude. Eu acho que eu tenho tudo isso na minha arte. E isso me faz me sentir vivo.

Afro.TV – Sua arte está também na fantasia dos filhos de Gandhy. Como é fazer parte da história de um grupo de Afoxé tão importante e representativo?

J.P – Esse é o meu segundo ano no Afoxé Filhos de Gandhy. Foi uma surpresa receber o convite e eu aceitei logo de primeira. Sou apaixonado por carnaval (risos) e o Afoxé Filhos de Gandhy representa muito para mim, porque até você assimilar o que é Candomblé, o que é Afoxé, o que é carnaval. Eu sou uma pessoa que nasci dentro de terreiro, e a gente via aqueles caras com aqueles atabaques pintados de branco, com toda aquela patuscada que era muito semelhante ao que a gente via no terreiro e aquilo sempre me encantou. Mesmo hoje eu tendo muito cuidado com esse lance da afro-religiosidade nos carnavais, eu sou um cara que defende muito isso. Eu sou meio reticente em algumas coisas. Mas é um prazer estampar o manto sagrado. Este ano a gente retoma a predominância dos tons mais claros na fantasia, para dar esse toque do manto sagrado, do manto branco dos filhos de Gandhy.

“É muito especial para mim, confeccionar o manto sagrado dos Filhos de Gandhy.”

Afro.TV – Você Gosta do Carnaval

J.P – Eu sou apaixonado pelo Carnaval. Moro o Engenho Velho da Federação, área central de Salvador, próximo aos bairros do Campo Grande, da Orla Marítima. Eu sou de uma família onde temos costureiras, músicos – meu tio é sócio de um bloco de samba. Cresci no meio disso. Minha tia foi educadora do Ilê Aiyê por um tempo e por ter envolvimento com o MNU (Movimento Negro Unificado), ela traz esse gostar dos blocos afros, de entender, respeitar e tomar como um legado essa afirmação e desfilar nos blocos afros.  Sou um cara apaixonado por carnaval, mesmo o carnaval ainda tendo muito a ser reformulado, porque a gente sabe que o carnaval, infelizmente, ainda não é uma estrutura para nosso povo.  Nem todo o corpo e  mente negra pode brincar um carnaval  saudável. A gente sabe disso.

Afro.TV – Quando se fala de Junior Pakapym fala-se também onde ele nasceu e da sua religião. O que o Engenho Velho da Federação representa para você e porquê você leva o nome do bairro?

J.P – Quando a gente fala de Júnior Pakapym, a gente fala de arte e candomblé. A gente fala das religiões afro-brasileiras porque a minha arte retrata muito isso, com todo o cuidado e respeito que pode ser visto. O público pode remeter muito à periferia, à comunidade negra. Eu sou um dos caras que levantam essa bandeira aqui dentro, que falo, que sempre que vou onde eu estiver, eu exalto o nome do meu bairro com tudo, com tudo. Eu sou um cara que vivo intensamente o meu bairro. Dialogo com todas as camadas da minha comunidade, com todo o respeito. Eu acho muito importante, ainda que eu chegue a lugares como este, sempre levo esse nome porque a gente dizer a nossa origem. Sem passado, a gente não tem futuro. E o Engenho Velho (Federação) é o meu passado e o meu presente e eu preciso estar com ele no meu futuro. E talvez esse lance da transformação desses espaços dependa também dessas pessoas, de pessoas como eu, como outras pessoas que conseguem chegar a algum lugar, a partir do seu trampo, exaltar seu bairro.

Afro.TV – O que o Candomblé é para você e porque seus trabalhos têm elementos relacionados à  sua religião?

J.P – O candomblé é minha vida. Eu nasci no candomblé, tive toda a sinalização para continuar nele, graças a Zambi. Minha mãe é mãe de santo, meu irmão iniciado, boa parte da minha família é iniciado. Hoje eu sou uma das pessoas direcionada a cultuar o legado da minha família biológica, então o candomblé é aquilo que me sustenta, o candomblé é o que me dá discernimento, é o que me dá equilíbrio. A minha arte começou por conta do candomblé e ela floresceu dentro do candomblé e eu acho que eu sou essa ferramenta, esse meio, de trazer esse legado de forma respeitosa e cuidadosa para o lado artístico.

Afro.TV – Você é sobrinho de Makota Valdina, mulher que nos ensinou muito e nos deixou como legado essa consciência de combate ao racismo e a intolerância religiosa. O que de Makota há em Júnior? como ela influenciou a sua vida?

J.P – Minha tia Neném, a professora Valdina de Oliveira Pinto – Makota Valdina. Nós sobrinhos tínhamos como mãe, porque ela não teve filho biológico e criou a gente como filho. É a irmã mais velha e madrinha da minha mãe. Foi uma pessoa que nos criou e nos orientou. Ela foi quem me incentivou para esse lance da arte, porque lá, com 7, 8 anos de idade, ela incentivou e investiu para que eu seguisse esse caminho. E o que há em mim, dessa grande ancestral,  dessa grande estrela, desse grande raio de sol? Assim como há em mim e que existe que há também em todos os outros que foram criados e instruídos por ela é trilhar o caminho correto, dentro do nosso legado que é o Candomblé, dentro  das questões raciais, na busca para sanar as outras questões, as outras dúvidas. Ela (Makota Valdina) foi uma pessoa que fez sua passagem ainda buscando aprender aspectos que não eram no tempo dela, mas que ela ainda estava em busca. Eu acho que a minha maior forma de prestar homenagem também é uma das maiores formas de ser quem eu tenho sido, sabe? Em defesa das religiões matriz africana, em defesa da tradição, mesmo entendendo as mudanças que devem ser feitas, devem acontecer, mas defender a tradição, as formas e os jeitos negros da comunidade negra, das comunidades de terreiro. É algo que eu ainda mantenho, na própria arte, a forma que eu trago os inquices (orixás), são formas mais antigas e eu tento sempre afirmar isso, e isso vem muito a partir de um olhar dela.

Afro.TV – Você é jovem. Sabe que pode estar influenciando outros jovens com sua arte, seu trabalho?

J.P – Bom, esse lance da juventude, mesmo já sendo um jovem de quase 36 é uma grande responsabilidade. Eu percebo, quando as crianças, os adolescentes, aqueles meninos que já estão na pré-adolescência me param e falam “Pakapym! Eu vi seu trabalho, eu te vi na televisão. E eu peguei um livro que foi o senhor que desenhou, que ilustrou e tal”… fala “ tira uma foto aqui comigo”, então você compreende o quanto é importante e necessário ter responsabilidade para que a gente possa ser seguido de uma forma correta. O lance de não deslizar, de sempre seguir de forma correta, de trazer sempre novos caminhos positivos para que eles possam olhar e dizer eu também quero ser isso. Eu sou um cara que nas minhas redes sociais dialogo muito sobre isso. E eu sempre fiz o porquê esse é o público que eu quero atingir. É uma preocupação minha.

Afro.TV – Qual mensagem você deixa para a juventude?

J.P – A mensagem que eu deixo para juventude é que ainda dá tempo, sim. Vamos correr, vamos se aquilombar, vamos entender como é que funciona a internet, a rede social. Eu sempre digo isso porque hoje é o principal meio onde a juventude tem se espelhado. Então a gente tem que ter muito cuidado com isso, entender que a internet tem muita besteira, mas, ao mesmo tempo, tem muita gente bacana que a gente pode seguir.

Um dos maiores conselhos é ler seus livros humanos – seus mais velhos, suas mais velhas, sua avó, sua mãe, seu pai, seus tios, seus irmãos mais velhos. Entender como é que eles trilham a vida, ver se aquilo é um padrão a ser seguido, correr atrás dessas pessoas, para depois a gente está na internet buscando, tá aprendendo coisa aí. Mas ainda assim, deixando a mensagem que a internet tem muita coisa boa sim, mas a gente tem que ter esse filtro e primeiramente ler quem está próximo da gente.

Entrevista realizada por Ani Bárbara

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