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O Brasil precisa do Black Money

O Brasil precisa do Black Money

Imagem por LightFieldStudios

por Paulo Rogerio Nunes

“Sem comércio e indústria, um povo perece economicamente. O negro está perecendo, porque ele não tem um sistema econômico”.

Marcus Garvey.

O Brasil está entre as dez maiores economias do mundo e figura ao lado de nações altamente industrializadas, como a Inglaterra, a França e a Alemanha, no ranking que mede o Produto Interno Bruto (PIB). O país já foi o sexto, em 2011, no auge do crescimento econômico nacional e da inclusão de 40 milhões de pessoas na chamada “nova classe média”. A crise econômica que atinge o país desde 2014 deve fazer o Brasil recuar algumas posições nesse importante indicador. Entretanto, ainda somos um país relevante na economia global. 

Esse texto não pretende fazer análises históricas e sociais mais amplas, mas ressaltar que, além do “Custo Brasil”, que os economistas tradicionalmente apontam como uma das causas para o país não alcançar maiores patamares na economia (burocracia excessiva, alto índice de corrupção, infraestrutura ainda limitada etc.), há outro fator determinante para exclusão brasileira, que pode ser chamado de “Custo Racismo”.

O fato de sermos uma sociedade multiétnica, plurirracial e multicultural deveria ser um elemento competitivo no cenário global, mas, ao contrário disso, percebemos, ao olharmos as diversas pesquisas produzidas, que a diversidade racial tornou-se um fator estruturante da exclusão brasileira. No “Custo Racismo” estão embutidos: a educação deficitária, a discriminação na hora da busca do emprego e, sobretudo, o sistemático assassinato de jovens negros em sua idade mais produtiva. A ideia de ser uma economia de mercado competitiva é incompatível com a marginalização de 56% de sua população.

A triste realidade é que, em geral, o empreendedor brasileiro age por necessidade e sem planejamento. O Brasil tem 34,5% de sua população economicamente ativa formada por “empreendedores”, isso representa 40% da massa salarial do país, conforme dados divulgados na última semana de empreendedorismo do Sebrae. Desses, 4,6 milhões são Micro Empreendedores Individuais, categoria criada pelo Governo Federal, para facilitar a legalização de milhares de trabalhadores autônomos, os chamados “empreendedores de correria”, que não possuem, em geral, infraestrutura e nem funcionários.

Ainda de acordo com o Sebrae, com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), 50% dos donos de negócio no Brasil são afrodescendentes, 49% são brancos e 1% pertencem a outros grupos populacionais. Porém, no grupo dos negros, “há uma proporção elevada de indivíduos envolvidos em atividades mais simples, como a pesca, ambulantes e cabeleireiros.”

Já entre os brancos, “verifica-se uma maior proporção de indivíduos que empreendem em atividades mais especializadas como advogados, médicos e engenheiros”

No mundo, em países com o mesmo perfil de diversidade étnico-racial que o Brasil, esse é um tema levado a sério. Na África do Sul, uma das principais políticas criadas no pós apartheid, foi a criação do Black Economic Empowerment (BEE), ou “Empoderamento Econômico Negro”, uma complexa legislação que garante pontuação extra nas licitações públicas para as empresas que têm sócios majoritários negros ou que possuam uma política de diversidade no seu quadro de funcionários e, além disso, fornecedores negros na sua cadeira produtiva. Nada mais justo, considerando que estamos falando de recursos públicos, oriundos dos pagamentos de impostos, feitos pela maioria da população, sulafricanos (as) negros (as).

Recentemente, depois de algumas críticas em relação ao alcance da política nos setores mais empobrecidos do país, a legislação ficou ainda mais completa, buscando incluir populações rurais e adquirindo uma forma ainda mais sustentável, por meio de cooperativas. O fato é que para fazer negócio na África do Sul, as grandes corporações, investidores, ou pequenos empreendedores precisam comprovar que estão sintonizados com a agenda da equidade para superar o legado negativo que o apartheid deixou no país.

Nos Estados Unidos, a realidade não é diferente. As ações afirmativas já foram institucionalizadas de tal forma que todas as empresas precisam demonstrar para a sociedade, por meio de ações de comunicação, ou seus relatórios de sustentabilidade, o que fazem para garantir a inclusão de grupos historicamente discriminados. Grandes multinacionais do setor de alimentos, beleza, automóveis, bancários e, mais recentemente, de tecnologia, estão empenhadas em investir milhões de dólares para o treinamento e formação de afroamericanos, para a criação de anúncios publicitários inclusivos e, o mais importante, manutenção de uma política explícita para a compra de bens ou serviços de empresas negras. Essas ações não são vistas por grandes corporações como “caridade”, mas como um elemento estruturante dos seus negócios. Nos EUA, há uma agência governamental responsável por esse tipo de política, o National Minority Supplier Development Council, que certifica empresas que são gerenciadas por mulheres, negros e outros grupos minoritários.

Alguns exemplos: Há nos EUA um clube de grandes empresas superando a marca de 1 bilhão de dólares investidos nos segmentos economicamente minoritários, dos quais fazem parte IBM, P&G, Toyota, Comcast NBCUniversal, Microsoft, Coca-Cola, Ford, Walmart, Johnson & Johnson etc.

Em geral, as empresas nos EUA competem para terem boas posições em índices de diversidade. O indicador da DiversityInc, por exemplo, é um dos mais respeitados. Lá, empresas conhecidas no Brasil como Mastercard, Sodexo, J&J e Procter and Gamble, pontuaram entre as 10 mais diversas. E não é só isso, até mesmo nos fundos governamentais, como os fundos de pensão, há ações afirmativas.

Desde 2013, as empresas de tecnologia são o centro do debate por ações afirmativas nos EUA. Com a compreensão de que estamos fazendo uma transição de uma sociedade industrial para a sociedade do conhecimento, uma série de ações estão sendo tomadas por gigantes da tecnologia como Google, Facebook, Twitter, Microsoft, Intel e Apple para o aumento de negros no setor. Cada uma dessas corporações já assinou grandes planos de investimentos de centenas de milhões de dólares para formar jovens e apoiar organizações negras. Há uma explosão de dezenas de projetos sociais como o premiado Black Girls Code, que ensina meninas negras a programar. Incubadoras de empresas e fundos de investimentos em startups dedicados exclusivamente a iniciativas de negros surgem frequentemente.

A cidade de Oakland, com mais de 80% de negros, ao lado do Vale do Silício, tornou-se, portanto, o epicentro dessa onda de inovação negra, atraindo gigantes, como o Uber, para se instalarem em um local que por muito tempo foi devastado pela endemia do crack, mas que agora respira os ares do ambiente colaborativo e compartilhado da nova economia.

Ainda falando de ambiente inclusivo, não podemos esquecer o discreto Canadá, que apesar de fazer pouca promoção de suas ações, é também um modelo em termos de inclusão multicultural, com a atração de imigrantes, por conta de seu déficit de natalidade. No Canadá, desde os anos 90, por exemplo, há um canal de TV dedicado aos povos originais e a economia local tem a diversidade como um valor fundamental.  O The Canadian and Aboriginal Supply Diversity Council (CAMSC), em menos de uma década, já conseguiu transferir mais de 500 milhões de dólares para negócios liderados por grupos minoritários, conduzindo workshops, certificando empresas e abrindo canais de diálogo com grandes corporações canadenses.

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No Brasil, a conjuntura econômica, apesar de adversa, tem favorecido, ironicamente, o crescimento de novos pequenos negócios, sobretudo na chamada base da pirâmide (classes C, D e E). Com o aumento do desemprego, muitas famílias estão apostando em usar suas economias para criarem novos empreendimentos e buscarem uma alternativa paralela ao mercado de trabalho. 

Nos últimos anos é notório o surgimento de um subsegmento dentro do empreendedorismo, o chamado “afroempreendedorismo”, que tem um expressivo foco na economia criativa. Ao analisarmos esse segmento, observamos um número grande de marcas de roupas, produtos de beleza, acessórios de moda, editoras de livros, produtoras de vídeos, projetos de gastronomia e produtos de tecnologia, como sites, blogs e aplicativos com o foco na cultura afro. Assim como nos EUA, cada vez mais o conceito do “Black Money” tem apelo entre a juventude negra, que começa a sair das universidades depois de adentrar pelas políticas de ações afirmativas. A queixa, entretanto, desses empreendedores é a necessidade de mais conhecimento da área de negócios e a falta de acesso ao crédito.

É preciso, portanto, pensar em alternativas e programas mais estruturados para auxiliar milhares de empresários e empreendedores negros/as do Brasil na difícil missão de criar e gerenciar negócios, em um cenário tão hostil de crise econômica e falta de investimento. Da mesma forma, é preciso ajudar organizações tradicionais (ONGs), que estão fechando suas portas por não conseguirem mais doações e por terem dificuldade em compreender que devem buscar soluções híbridas (entre o social e o comercial) para serem sustentáveis e sobreviverem. 

Além disso, é necessário buscar cooperação com organizações negras em países como EUA, Canadá e Reino Unido, para identificar parcerias estratégicas, de modo a alavancar os negócios negros. E, também, estabelecer uma maior integração com a região do mundo que mais cresceu economicamente na última década, o continente africano, com seus pólos de desenvolvimento como Joanesburgo (África do Sul), capital econômica da mais sólida economia africana; Accra (Gana), um forte pólo têxtil e turístico; Nairóbi (Quênia) e Kigali (Ruanda), referências mundiais em tecnologias digitais; Lagos (Nigéria) com seu pulsante mercado consumidor interno; Abidjan (Costa do Marfim), maior exportador de Cacau do mundo; e Adis Abeba (Etiópia), um dos países que mais crescem atualmente.

O desenvolvimento econômico é, de fato, um dos elementos mais complexos do mundo. Ao mesmo tempo, é imperativo que as organizações negras brasileiras estejam cientes dos desafios que estão postos para enfrentar os dilemas desse início do século XXI.

O movimento negro brasileiro conseguiu colocar no debate nacional o tema do racismo de uma maneira muito eficaz, mesmo com as adversidades, enfrentando o mito da “democracia racial” e conquistando espaços importantes nas universidades, setores governamentais e mais timidamente na mídia. O ativista afroamericano Martin Luther King Jr, pouco antes de ser assassinado, dizia que a segunda etapa dos direitos civis (civil rights) era o direito à prata (silver rights), um trocadilho que falava justamente sobre a necessidade do empoderamento econômico. Na mesma linha, o líder jamaicano Marcus Garvey, no início do século passado, dizia que “O auge do empresariado negro ainda não foi atingido. Temos muito a caminhar. Queremos mais lojas, mais bancos e grandes empresas”.

O escritor Franz Fanon disse, em um dos seus textos, que cada geração deve descobrir sua missão. A inclusão negra no setor produtivo da sociedade brasileira é a próxima barreira histórica que os afrobrasileiros precisam enfrentar. É preciso, portanto, cumprir o sonho de Marcus Garvey, fortalecer a comunidade negra, buscando autonomia financeira para construir um futuro com altivez e prosperidade.

Paulo Rogério Nunes — Publicitário e empreendedor, autor do livro “Oportunidades Invisíveis” e sócio da AFRO.TV

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